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15 de fev. de 2011
O Acaso
Postado por
Ceres
Não sei, me deu vontade de sair de casa.
Dessa forma, pedalando, eu me sentia bem. Estava no nosso lugar favorito, e cada parte daquele lugar me passava de forma rápida, me lembrando aquilo que vivemos aqui. Não vinha desde quando você foi embora. A unica coisa que conseguir fazer desde então foi me contentar com suas lembranças, com sua carta escrita em caneta preta guardada na agenda. Tenho saudade do seu cheiro, do seu sorriso, de você tocando violão para mim.
Assim, eu pedalava. Pedalava para encontrar as minhas lembranças. Dei várias voltas na nossa lagoa favorita, senti o sol invernoso queimando a minha pele, o céu azul e limpo, o vento frio assoprando-me.
Até que vi alguém à minha frente. Um homem. Alto, fardado, de costas pra mim. Ele andava, vagaroso, com uma mochila nas costas, coçando a cabeça. Me distraí olhando para ele.
Devagar, fui parando de pedalar, mas não apertei os freios. Fui deixando a bicicleta me levar.
Quando dei por mim estava com o joelho ralado, e em cima do cara fardado.
- Você voltou? - eu disse para ele.
- Que bom que você está aqui, por pouco não te encontro em casa.
E mesmo com meus sessenta quilos em cima dele, ele sorria para mim. Aquele sorriso que eu tinha saudade.
- O que você está fazendo aqui?
- Nós dois sempre nos atraímos meu amor, lembra? - eu disse, enquanto ele me levantava.
- Lembro sim, querida. - e me beijou.
Ele me levou para casa, me abraçando pela cintura e empurrando a bicicleta.
Depois disso, descobri o porquê de ter saído de casa.
E, aliás, o acaso não existe.
28 de dez. de 2010
Eu desejo...
Postado por
Ceres
- Quando te conheci, nunca imaginei que ficaríamos juntos, e que você me faria tão feliz. - eu repeti.
Eu virei o pescoço, para poder olhá-lo melhor.
Ele sorria para mim, e ajeitava meu cabelo com carinho, colocando-o atrás da orelha.
- Você foi a melhor coisa que aconteceu comigo esse ano... - eu continuei.
Me olhando com cautela, ele segurou meu rosto com as duas mãos, e me beijou.
Ainda de olhos fechados eu sorria. Sorria, porque não conseguia fazer outra coisa. Ainda sentia suas mãos protegendo meu rosto, e sua respiração muito perto de mim.
- 10
- 9
- 8...
Ele se levantou e me puxou com ele. Me abraçou com força, e me levantou uns 5 centímetros do chão enquanto cheirava meu cabelo.
- Te amo.
- Também ... digo, te amo.
- Hã?
- Eu não te amo também, eu só te amo. Te amo pelo fato de você existir, te amo pelo fato de você me ouvir, de me abraçar, de simplesmente sorrir para mim... te amo por isso. - e sorri para ele novamente.
Ele abriu um sorriso maior ainda, e me beijou novamente.
Quando dei por mim, os fogos já queimavam céu afora. Era um Ano Novo que começava.
- Feliz Ano Novo.
- Feliz Ano Novo.
Naquele dia, descobri que todas as minhas expectativas que eu tive durante o ano, coisas que eu nunca pensei que se realizariam, estavam ali, comigo. Descobri que sonhar com amor, nunca é demais.
Estava convicta que, nesse ano que começava, eu não tinha empecilhos para conseguir o que eu queria.
- Tem problema se eu te contar o meu desejo?
- Não, porque eu acho que o meu é o mesmo.
Eu sorri.
- Quero ficar com você esse ano.
- E no outro.
- E no outro...
Pulei no seu pescoço, e beijei seu rosto. Senti ele me apertando pela cintura.
Eu não precisava de mais nada. E meu desejo era esse. Meu não, nosso desejo.
Pauta para o Projeto Bloínquês
25 de out. de 2010
Amar, sumir e depois, viver
Postado por
Ceres
Querido,
Não sei o motivo concreto de você ter me mandado aquela carta. Eu sei que você não se preocupa realmente como a minha plenitude e felicidade. Se se preocupa, nunca me foi provado. Foi de total mau gosto, confesso, mas, mesmo assim, eu li e reli uma centena de vezes.
Nesse exato momento em que lê essa carta, a única certeza que poderá ter é que minha felicidade, minha satisfação, meu amor próprio são inferiores aos seus; porque você os levou. Levou tudo o que pode levar. Levou e não repôs. Como, meu Deus, como ainda terei se só levara de mim?
Repito que infelizmente, ainda sou apaixonada por você. Repito que, minha vida inteira, quis que ficássemos juntos. Você tem a consciência disso.
Mas não me arrependo. Não me arrependo de ter sentido por alguém algo tão bonito, tão forte. Algo que sempre foi o mais importante para mim. Para quê se arrepender? Meu amor só não foi retribuído. Eu só aprendi a te amar sozinha. Você teve o tempo todo, o amor à sua frente e não soube vivê-lo? Arre! Estou farta, outro alguém me dará merecido valor!
Se agora quer retribuir-me, irei negá-lo. Por simples orgulho. Por que, se pude amá-lo nessa intensidade, e por tanto tempo, serei capaz de amar outro alguém. E se eu acredito nisso, sei que consigo.
E se você quer mesmo me recompensar por isso tudo, vou pedir de novo a você que suma. Suma de vez da minha vida, dos meus olhos, do alcance das minhas mãos, do meu coração. Saia de mim através das lágrimas que deixo rolar por minha face agora. Se não pôde me amar, pelo menos esqueça que um dia te amei. Esqueça que um dia eu poderia pertencê-lo.
Tente agora, amar alguém por conta e risco do seu coração. Não tente amar porque é amado, como não acredito que tenha feito. Ame como fosse seu ultimo dia de vida. E veja o que acontece. O que ocorrer, independente do que for, não será nada a mais, nada a menos do que você construiu.
Boa sorte.
Pauta para projeto Bloínquês.
Não sei o motivo concreto de você ter me mandado aquela carta. Eu sei que você não se preocupa realmente como a minha plenitude e felicidade. Se se preocupa, nunca me foi provado. Foi de total mau gosto, confesso, mas, mesmo assim, eu li e reli uma centena de vezes.
Nesse exato momento em que lê essa carta, a única certeza que poderá ter é que minha felicidade, minha satisfação, meu amor próprio são inferiores aos seus; porque você os levou. Levou tudo o que pode levar. Levou e não repôs. Como, meu Deus, como ainda terei se só levara de mim?
Repito que infelizmente, ainda sou apaixonada por você. Repito que, minha vida inteira, quis que ficássemos juntos. Você tem a consciência disso.
Mas não me arrependo. Não me arrependo de ter sentido por alguém algo tão bonito, tão forte. Algo que sempre foi o mais importante para mim. Para quê se arrepender? Meu amor só não foi retribuído. Eu só aprendi a te amar sozinha. Você teve o tempo todo, o amor à sua frente e não soube vivê-lo? Arre! Estou farta, outro alguém me dará merecido valor!
Se agora quer retribuir-me, irei negá-lo. Por simples orgulho. Por que, se pude amá-lo nessa intensidade, e por tanto tempo, serei capaz de amar outro alguém. E se eu acredito nisso, sei que consigo.
E se você quer mesmo me recompensar por isso tudo, vou pedir de novo a você que suma. Suma de vez da minha vida, dos meus olhos, do alcance das minhas mãos, do meu coração. Saia de mim através das lágrimas que deixo rolar por minha face agora. Se não pôde me amar, pelo menos esqueça que um dia te amei. Esqueça que um dia eu poderia pertencê-lo.
Tente agora, amar alguém por conta e risco do seu coração. Não tente amar porque é amado, como não acredito que tenha feito. Ame como fosse seu ultimo dia de vida. E veja o que acontece. O que ocorrer, independente do que for, não será nada a mais, nada a menos do que você construiu.
Boa sorte.
Pauta para projeto Bloínquês.
20 de out. de 2010
Verbo de hoje: Esquecer
Postado por
Ceres
Quatro quarteirões depois e eu lembrei que não sabia dirigir. “Se já estava ali, conseguiria fazer o resto.”- Era disso que eu tentava me convencer. Após conseguir o controle do carro, triunfalmente, conseguia também pensar no que me levou a aquela situação. Para ser exageradamente sincera, eu já não aguentava mais aquela história idiota à qual fui submetida a viver. Era absurdo o fato de ter me apaixonado por ele. Era absurdo, e perfeito demais para que eu pudesse acreditar. A queda foi brusca. Para mim. De pensar que um dia eras um anjo, era minha companhia, era quem eu queria amar. Sabe no que foi você é bom? Em enganar-me. Em provar-me que eu era uma completa idiota. E depois fazer com que eu acreditasse em tudo. Freei o carro, depois de ter arrastado quilômetros de lágrimas atrás de mim. Não sabia exatamente onde eu estava, mas isso não me preocupava. A sensação que eu tinha, depois de chorar tanto, era de liberdade. Não precisava de mais nada. Coloquei as mãos por cima das pernas, após tirar o cinto. Meu coração, paulatinamente, parava de pulsar com força. Respirei. Arrastei as mãos devagar em direção à fechadura do carro, para dar tempo de continuar respirando. Desci do carro, e coloquei meus pés descalços na areia. Saí andando, de olhos fechados, confiando no vento que batia no meu rosto. Era mais fácil confiar nele do que em quem nem quero mais lembrar o nome. Com a mesma rapidez com a qual eu me apaixono, cheguei a me esquecer de até como chegara ali. Não sabia como voltar para casa, nem porque aquilo me machucara tanto. Depois, nem aquilo me importava mais. Fiquei ali, até achar que minhas feridas haviam cicatrizado. Fiquei ali só até antes do amanhecer. Consegui acreditar em mim. Consegui acreditar que havia esquecido.
Pauta para o projeto Bloinquês
16 de set. de 2010
Café para Dois
Postado por
Ceres
A única coisa que eu estava tentando fazer, naquela hora, era esquecer o quão eu era frágil em relação à ele. Me sentei tonta à mesa do café. Tirei da bolsa meu livro, e dependurei a bolsa no encosto da cadeira de madeira. Rapidamente, larguei o livro em cima da mesa, acendi um cigarro, e fechava os olhos devagar, quando me atenderam:
- O que você deseja? - me perguntou uma menina loirinha.
- Café. Forte e com açúcar.
A mocinha de roupa curta saiu com um bloquinho de papel na mão, rebolando.
Abri meu livro, mas não conseguia me concentrar em uma palavra se quer.
Não conseguia parar de pensar no ônibus. Não conseguia parar de pensar em quem lá entrou e me deixou. Tirei o cigarro da boca, e amassei-o contra o forro branco da mesa.
E eu chorava. Chorava por ele ter me deixado. Chorava pelo fato de a ausência dele me doer tanto. Chorava, chorava, e chorava.
A mocinha loirosa e bunduda voltou, e colocou a xícara na minha frente.
Esfreguei os olhos com certa raiva, e quando vi, a loirinha não estava mais ali.
Peguei a xícara com as duas mãos, e a única coisa que eu quis foi me afogar naquele café que nem o açúcar eu joguei. Num gole, a xícara estava vazia.
Um ardor incômodo eu encontrava na garganta. Coloquei minhas mãos frias no pescoço numa tentativa frustrada de me aliviar.
Sentou-se alguém a minha frente, sorridente.
- Você? - eu disse, rispidamente pra minha companhia.
- E quem você queria que fosse? - ele disse, ironico.
- Você sabe muito bem quem eu quero, seu idiota! - eu gritei, chorando novamente.
Ele me olhou com certa misericórdia, mexeu no cabelo, suspirou e disse:
- Desculpa, sério, desculpa.
Eu levantei o olhar pra ele, e tentei esboçar um semblante melhor.
Ele chamou a loirinha de volta, e pediu mais dois cafés.
- Desculpa, mas não consigo mais tomar café, não dá mesmo. - eu disse.
Ele me olhou, e deu uma risada curta.
Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo.
A loirinha saiu rebolando de um jeito no qual eu já me acostumara, e ele acompanhou ela com os olhos por uns segundos.
Eu, para minha própria surpresa, comecei a rir dele.
Ele sorriu de volta, um sorriso que eu descobri que precisava ver naquele dia.
- E então, - ele disse, depois da minha risada- como você está?
- Estou bem, eu acho. Você ficou sabendo?
- Que ele foi embora?
Permaneci calada.
- Fiquei sabendo sim... eu sinto muito. - ele esboçou uma cara triste. - Mas posso te falar uma coisa?
- Pode. - eu disse, em tom baixo.
- Não te tiro o direito de ficar triste... mas espero que você não dê mais tanta importância pra isso.
- Não consigo.
- Ceres - ele respirou-, você sabe o por quê de eu estar falando isso pra você.
- Sei? - indaguei, sem saber mesmo o motivo.
- Eu sei que sabe.
Ele levantou de onde estava, e arrastou a cadeira, com cuidado pro meu lado. Se sentou nela.
- Era aqui - ele disse, olhando para o chão, onde estava-, era aqui que eu estava, do seu lado. O tempo todo. E isso não vai mudar agora, tá bom?
- Que bom. - eu respondi, sem graça.
Ele passou o braço esquerdo em volta do meu ombro; e eu me permiti a deitar no ombro dele, segurando a sua mão do outro lado.
- E quer saber?
- Quero.
- Espero que um dia você sinta por mim o que você sente por ele agora.
p.s.: Este texto é só um conto. Apenas usei meu nome.
Ah, e eu não fumo.
Pauta para o projeto Bloínquês
Imagem: we♥it
23 de ago. de 2010
Meu Louco Preferido
Postado por
Ceres
Gente, como aquilo era engraçado! Eu ria, ria muito. Ria muito pelo fato de nem saber quem ele era.
Ria por dentro.
Bom. Eu estava, como quem não quer nada, na praia, sozinha, como eu sempre fazia. O vento penteava, de uma forma que eu adorava, meu cabelo. Eu andava, quase fechando os olhos, afundando os pés na areia, devagar... até que uma música me chamou a atenção. Era um garoto, tocando violão em cima do telhado de umas das casas que tinham por ali. Passei, direto, pensando em como aquele menino era louco. Desde quando alguém sobe num telhado pra tocar violão? Por um momento, me distraí, e depois, já não me permitia a pensar demais nele.
Voltei à aquele lugar várias vezes depois daquela, e o louco estava lá, do mesmo jeitinho, tocando a mesma música bonitinha; que à essa altura, já era a minha preferida. De uma forma tão louca quanto o garoto, eu aprendi a cantar também.
Um dia qualquer, em que fazia um certo frio, passei ali de novo, bem devagar, pra curtir o louco cantor.
Mas ele não tocava. Estava parado, olhando para mim. Por um momento, parei. E olhei para ele também. Ele desviou o olhar.
Respirei.
Cantei. É, cantei. Cantei a música dele, tão louca feito ele, alto, pra ele escutar.
Consegui enxergar ele sorrindo, e, cantarolando comigo. Pegou o violão que estava do seu lado, e começou a tocar também. Cantávamos, cantávamos, cantávamos.
Eu dava passos para frente sem perceber, até que estava no jardim da casa dele.
Ele, já estava na ponta de cima da escada que ficava perto da porta, tocando.
Aí eu já conseguia ver o formato do seu rosto, ouvi-lo melhor. Ele sorria, eu também. Éramos cúmplices.
Eu, tão louca feito ele, subi a escada. Sentei-me ao seu lado.
O vento ali era melhor. A maresia era reconfortante.
Por horas, ficamos ali. Por fim, sem dificuldade ou receio, nos beijamos. Sorríamos de novo, cantávamos de novo, beijávamos de novo.
Gente, como aquilo era engraçado! Eu ria, ria muito. Ria muito pelo fato de nem saber quem ele era.
Ria por dentro. E ele, desse jeito, ria comigo, louco. Meu louco preferido.
Pauta para Projeto Bloínquês
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